O opinador geral

O assunto é o Enem? Eles entendem.

Palocci deve continuar na Casa Civil? Eles sabem.

Enfim, não se trata da bancada do SuperPop da RedeTv! mas eles terão uma opinião sobre qualquer coisa e a qualquer momento em que forem solicitados.

De paladina da redemocratização ela passou a aparato político-partidário, e mais especificamente na pessoa de seu presidente, a OAB está sempre presente nos principais jornais e revistas do Brasil opinando sobre… tudo.

Os discursos vão se sucedendo e escondem a sutileza de quem não quer ser pego com a boca na botija: eles são, em essência, políticos, e não, como querem nos fazer crer, jurídicos. Invariavelmente, as falas são enviesadas e coincidência ou não, sempre refletem e corroboram a opinião da grande mídia, ou seja, da direitona brasileira.

É contra seu próprio legado que a OAB investe e talvez algum dia, em algum lugar de sua rica biblioteca, algum dos componentes de seu conselho de sábios encontre a magistral obra de Raymundo Faoro e se lembre, constrangido, que foi contra a democracia sem povo e o país de 20 milhões de senhores que a OAB se colocou um dia.

 

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Memórias do fogo

“Imaginei que a América fosse uma mulher a sussurrar-me seus segredos, os atos de amor e violação que a criaram.”

Eduardo Galeano

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Fala a presidenta:

No que se transformou o obstinado líder estudantil

“Eu nunca quis, nunca pensei em ser presidente do Brasil. Nunca tive de fazer arranjos constrangedores para chegar onde cheguei. E o Serra só fez isso (almejar a Presidência) a vida inteira: foi o primeiro aluno da classe, liderou o grêmio estudantil, foi parlamentar e governou sempre de olho na Presidência. Como é surpreendente o processo político brasileiro! Ao contrário do Serra, para mim ser presidente não era uma coisa de vida ou morte. Aconteceu naturalmente”.  (O Globo)

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Apesar de Vossas Senhorias, amanhã vai ser outro dia!

O nordeste brasileiro já foi a região mais rica do país. Toda a riqueza deste lugar foi disputada palmo a palmo. Houve a invasão de Salvador pelos holandeses. Rechaçados, voltaram em 1630, desta vez para ocupar o Estado do Maranhão com todos os seus latifúndios e engenhos. O domínio holandês se estendeu por boa parte do litoral nordestino e por essa época Recife se tornou uma cidade moderna e bonita por obra de Nassau. Antes disso, os franceses também tentaram tomar carona no rico e doce empreendimento açucareiro. Expulsos de nosso belo nordeste por volta de 1615, fundaram mais ao norte a Guiana Francesa. Enquanto isso, o Rio de Janeiro era uma cidadela que contava com pouco mais de 4.000 habitantes, dentre os quais, 3.000 indígenas. Os números são do historiador Mário Schmidt. São Paulo era uma vila pobre e isolada e sua economia, basicamente, gravitava em torno da lavoura de subsistência. Assim permaneceu por quase dois séculos.

Mas a História tem das suas e no século XVII a rica Europa trocou o açúcar por uma crise amarga. A febre dos metais preciosos que eram levados da América para os castelos medievais havia passado e a economia do nordeste brasileiro encolhia junto com a economia do velho mundo, o centro do qual o nordeste, como de resto todo o Brasil, dependia.

Hoje, o nordeste brasileiro se tornou uma espécie de satélite a gravitar em torno do sul-sudeste, tal qual o rico sul-sudeste gravita em torno de um centro maior, qual seja, os países centrais dos quais essas elites estaduais sulistas se consideram vassalos. Nosso ex-presidente sociólogo, príncipe e carioca, parece não ter entendido essa problemática. Foi preciso que um presidente nordestino nos mostrasse que o desenvolvimento nacional não viria de fora. Ele nos mostrou que o desenvolvimento deveria ser alavancado por nós mesmos, os brasileiros. Elevou-nos a auto-estima e nos uniu sob o ideal da justiça social e erradicação da miséria. Fez com que o nordeste e o centro-oeste puxassem a ascensão do varejo do país a quinta posição em um ranking global elaborado pela At Kearney Consultoria, conforme o UOL Economia.

Lamentavelmente, os Estados do sul-sudeste ditos educados e ricos, correm o risco de serem alcançados pelo atraso. Duvido que no auge de seu esplendor e riqueza o nordeste tenha tido alguma vez o pesadelo de se ver reduzido a situação em que está hoje. Manteve sua imoral estrutura colonial até o último segundo e hoje amarga o dissabor de ser uma das regiões mais pobres do país. O preconceito ostentado pelos tais ricos e educados contra nordestinos e nortistas não tem onde se basear. A entrega incondicional, por exemplo, de paulistas e mineiros ao neoliberalismo os coloca em delicada situação. Se entregaram aos países centrais a troco de migalhas tecnológicas tal qual os senhores de engenho o fizeram no século XVI em troca de moendas de cana-de-açúcar de última geração.

Obviamente, o quadro econômico atual é completamente distinto e a economia se tornou ainda mais complexa. Mas não custa nada pensar a respeito. Afinal, as estruturas mais simples desnudam as estruturas mais complexas.

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A (des)estrutura fundiária

Latifúndios são áreas agrícolas que têm mais de 1.000 hectares. No Brasil, essas propriedades representam 1% dos estabelecimentos rurais e, no entanto, ocupam inacreditáveis 39% da área agrícola do país.

O subaproveitamento das terras data de tempos faustos. É do Brasil Colônia a abjeta herança da desorganização do espaço agrário e da desorganização social daí decorrente. É esta desorganização social que nos lega uma média de 16,2 milhões de miseráveis que sem acesso aos meios de produção, dentre os quais a terra, se veem na condição de terem seus votos desqualificados por colunistas de jornais e revistas como se estivéssemos a viver a época do sufrágio censitário, época em que a abundante mão-de-obra desocupada ou subocupada garantiam ao empresário agrícola os altos lucros que, em parte, eram possíveis graças aos baixos salários pagos aos trabalhadores. Vale dizer, o aumento da produtividade se dava de maneira extensiva, ou seja, não se aumentava a produtividade por espaço cultivado, antes, aumentava-se o espaço cultivado. O vasto setor de subsistência se encarregava de fornecer, neste caso, a mão-de-obra necessária.

É a este Brasil antigo, até bem pouco tempo real, que se prende uma pequena parcela da sociedade brasileira. Ao pensar que há um movimento tendente a distribuir dignidade e cidadania a milhões de pobres absolutos, sobe-lhes pela cara um rubor, de vergonha e ódio, incontido. Sua reserva de mão-de-obra barata ameaça ascender ao nível da dignidade. O que virá agora, distribuição de terras? – se perguntam. É que criou-se no Brasil a cultura, ou falta dela, de que a terra é mero meio especulativo, direito real sem qualquer chance de limites. São rudes senhores que encastelados em aposentos pseudo-europeus, expediram ordens a legisladores, juízes, acadêmicos e outros vassalos afins, de modo a certificar seu direito divino à terra ocupada muitas vezes por meio da violência e da fraude.

O setor agro-exportador foi, desde sempre, um dos responsáveis diretos e imediatos da dependência externa extrema e por conseqüência, do subdesenvolvimento nacional. Não obstante, esse setor se recolhe, com boa média de representantes, em seu reduto mais peculiar, o congresso nacional, e de lá, menospreza a sociedade brasileira. Julgam-se senhores naturais do povo e acreditam ter reinado eterno, porquanto são anacrônicos. Já não lutam mais apenas contra o povo, lutam também contra a natureza, mais especificamente, contra o amanhecer.

 

Fontes

COELHO, Marcos Amorim; TERRA, Lygia. Geografia geral e do Brasil. São Paulo: Moderna, 2003.

FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. 34 ed.  São Paulo: Companhia das letras, 2007.

BBCBrasil. http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2010/07/100714_pobreza_multidimensional_indice_rw.shtml

 

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O eterno retorno

Conta-nos os historiadores que certa vez Carlos Lacerda publicara, com grande destaque na mídia, uma carta na qual agentes secretos articulavam, a mando de Perón e João Goulart, um plano para implantar uma “república sindicalista” no Brasil. Mais tarde, descoberta a farsa, um mais ou menos envergonhado Lacerda se desculpava sob o argumento de que fora vítima de vigaristas que lhe venderam a carta falsa.

A semelhança entre o fato narrado acima e o atual cenário eleitoral brasileiro é estarrecedora. O principal e mais abrangente aparelho ideológico da velha elite brasileira, a mídia, não apenas representa como também reproduz com uma perfeição assustadora a decadência, em todos os sentidos que o termo comporta, dessa mesma elite. Estagnação temporal, negação da realidade e um profundo anacronismo social são marcas gravadas a ferro no lombo dessa classe desde que as capitanias hereditárias inauguraram a deprimente cultura da concentração de terras e renda no Brasil. Os velhos discursos golpistas ressurgem, desta vez, carregados de inveja e ressentimento. Inveja porque os antigos donos do poder não se prestaram nem mesmo ao desenvolvimento nacional que agora, sob a capitania de um governo popular, vem a passos largos.

Do subsolo surgem boatos e calúnias, são vozes do atraso, fantasmas de senhores de engenhos e traficantes de escravos que esperam, angustiados, a oportunidade de destruírem o ambiente democrático e progressista que surgiu nos últimos anos. Não passarão!

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